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De botar-se...

19.01.16

Há coisas incríveis nesta terra e uma delas é em pleno século XXI ainda haver as chamadas debutantes, que vem do francês débutante... Chiquérrimo. Tão chiquérrimo que só serve para isto, para ver e ser visto.

 

 

Faz-me impressão manter tradições pelo simples facto de ser tradição. Faz-me impressão serem advogados por ser tradição familiar, faz-me impressão os touros de morte só pelo simples facto de ser tradição, faz-me impressão apresentarem as filhas a uma sociedade, sociedade altamente restrita, quando estas mesmas filhas já se fizeram apresentar das mais diversas formas a tooooda a sociedade.

Quer dizer, é uma falta de respeito, a "Sociedade restrita" prepara uma festa tão linda e pomposa, veste-as de comunhão pela terceira vez, fazem ensaiarem a valsa com os pais em troca de una apresentação em primeira mão e as malditas, que só tinham, de esperar até aos quinze anos, já andaram a fazer quilómetros desde os treze... É cuspir no berço de ouro que as criou.

 

 

Lembro-me, perfeitamente, do dia em que me deparei com esta realidade e pensei que estivessem a gozar comigo. Não, não pode. Isto existe? Cá?? Nesta nica de terra que ninguém tem onde cair morto?? Julgava eu...

 

Tinha eu já uns vinte e tantos, quando numa noite de copos e de saída nocturna fui confrontada com miúdas vestidas de segunda comunhão, foragidas de uma tal festa de um tal clube à caça de shots e bebida alcoólica. As moças não podiam consumir álcool na dita festa, porque não é de bom tom. Então desciam as escadas, sorrateiramente, e quando se apanhavam cá fora, entre uns bués e fixes e porras e fodasses lá iam uns shots  e uns golos de cerveja... 

 

Eu moça de freguesia, nascida e criada no campo, onde passas uma vida inteira sem saber o sobrenome da maior parte das pessoas que te rodeiam, pelo simples facto de não ser relevante e importante, isto era uma coisa surreal.

 

 

Só me lembro de dizer, "Mas o que é isto?? Isto é super Eça de Queirós... Isto ainda existe nos nossos dias?" E lá me explicaram, lá me colocaram a par das tradições da chamada nata micaelense.

 

Achava estranho saberem os sobrenomes com uma facilidade sem terem de referenciar qualquer tipo de alcunha. Para os meus lados as pessoas são conhecidas pelas suas alcunhas, Ana caga pregos, João cabeça grande, o Artur da loja, o José das ferragens, a Eduarda esfregulha, o António do camião, o cara negra, Guiné, preta, branca e por aí fora. O sobrenome é tão irrelevante que não traz estatuto, ninguém é mais do que ninguém pelo seu sobrenome. São mais do que alguém  pelo tamanho da cabeça, das orelhas,  por terem um camião, por serem mais morenos ou mais brancos, por trabalharem na loja das ferramentas, ou mercearia... Coisas do campo!!! 

 

 

As caganças só por cagança, por parecer bonito, porque fica bem, porque é assim ou sempre foi assim, retirando todo o tipo de genuinidade e divertimento à coisa fazem-me uma certa espécie e debutarem filhas nos dias de hoje é como mandarem mensagens de texto para um número fixo... Não faz sentido!!! As raparigas estão mais do que debotadas...

 

 

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